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O Poder Terapêutico do Encontro: Atendimentos em Dupla e Grupos no Autismo

  • Foto do escritor: Drª Mariana Ramos
    Drª Mariana Ramos
  • 13 de nov. de 2025
  • 4 min de leitura

Em um mundo que se constrói no contato com o outro, é impossível falar em desenvolvimento humano sem falar de relações. Para as pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), essas relações podem ser complexas, desafiadoras, mas também profundamente transformadoras quando bem mediadas.


Por isso, o atendimento em duplas, trios ou pequenos grupos tem se mostrado uma estratégia terapêutica valiosa — não apenas para favorecer a interação, mas para promover um aprendizado vivo e experiencial das habilidades sociais e da teoria da mente.


O Encontro como Ferramenta Terapêutica

O trabalho em grupo ou em dupla cria um espaço de trocas reais, onde o sujeito com autismo é convidado a perceber o outro, ajustar comportamentos e experimentar novas formas de interação. A presença de pares — sejam eles terapeutas, colegas de mesma faixa etária ou parceiros com diferentes níveis de desenvolvimento — torna o contexto mais natural e menos diretivo, estimulando a empatia, o compartilhamento e o jogo simbólico.


Esses encontros oferecem uma vivência concreta do que é conviver, esperar a vez, negociar, dividir e compreender sentimentos diferentes dos próprios. (Continua após a publicidade).



Habilidades Sociais: O Coração da Convivência

As habilidades sociais são o conjunto de comportamentos que nos permitem estabelecer relações saudáveis como cumprimentar, iniciar uma conversa, respeitar turnos e expressar emoções de forma adequada. Em pessoas com TEA, essas habilidades podem estar prejudicadas, seja pela dificuldade de compreender sutilezas sociais, seja pela rigidez comportamental.


Nas sessões em grupo, o terapeuta atua como mediador de interações, ajudando a criança ou adolescente a perceber e nomear o que acontece ao redor:

“Veja, seu colega ficou triste quando você pegou o brinquedo sem pedir.”

“Percebeu que ele está esperando a sua resposta?”


Essas pequenas mediações ampliam o campo de consciência e facilitam a construção de vínculos reais e significativos.


Teoria da Mente: Compreender o Outro é Compreender o Mundo

A Teoria da Mente (ToM) é a capacidade de entender que outras pessoas possuem pensamentos, sentimentos e intenções diferentes dos nossos.


No TEA, há uma tendência a interpretar o mundo de forma literal e autocentrada, o que torna difícil inferir o que o outro pode estar pensando ou sentindo.


O trabalho em duplas e grupos é uma oportunidade preciosa para exercitar essa compreensão. Quando um colega demonstra frustração, alegria ou surpresa, o terapeuta pode intervir com perguntas que favorecem a reflexão:

“Por que você acha que ele está bravo?”

“Como você se sentiria se fosse com você?”


Assim, o paciente é levado a sair de sua perspectiva individual para perceber o ponto de vista do outro; passo fundamental para o desenvolvimento da empatia.


A Teoria da Mente e o Autismo: Quando o Outro se Torna um Mistério

A Teoria da Mente (ToM) é a capacidade humana de atribuir estados mentais a si mesmo e aos outros — compreender que cada pessoa tem pensamentos, emoções, intenções e desejos próprios, diferentes dos nossos.


É essa habilidade que nos permite interpretar expressões, prever reações e agir de modo socialmente adequado, ajustando nosso comportamento conforme o contexto.

No Transtorno do Espectro Autista (TEA), essa habilidade está frequentemente comprometida ou subdesenvolvida, o que impacta diretamente a comunicação, a empatia e as interações sociais.


Quando a leitura do outro se torna desafiadora

Pessoas com TEA tendem a apresentar dificuldade em compreender o ponto de vista alheio. Isso não significa falta de empatia emocional — muitas vezes, elas sentem profundamente —, mas sim uma dificuldade em interpretar e antecipar o que o outro pensa, sente ou pretende fazer.


Por exemplo:

  • Podem não perceber que alguém está triste, mesmo diante de expressões faciais claras.

  • Têm dificuldade em compreender ironias, metáforas ou duplos sentidos, pois interpretam de forma literal o que ouvem.

  • Podem não entender que uma ação causa determinado efeito emocional no outro, como magoar alguém com um comentário.


Essas dificuldades não derivam de desinteresse, mas de um modo diferente de processar as informações sociais e emocionais.


O que acontece no cérebro

Pesquisas em neurociência mostram que regiões cerebrais associadas à rede da teoria da mente — como o córtex pré-frontal medial, o sulco temporal superior e a junção temporoparietal — apresentam funcionamento atípico em pessoas com autismo.

Essas áreas são responsáveis por integrar pistas visuais, verbais e emocionais para compreender intenções e sentimentos.


Assim, o cérebro do indivíduo com TEA tende a se concentrar mais em detalhes concretos e menos em significados implícitos, o que dificulta perceber nuances emocionais e sociais.


Impactos no cotidiano

O comprometimento da Teoria da Mente pode levar a:

  • Mal-entendidos sociais: interpretar palavras e comportamentos literalmente.

  • Dificuldade em prever reações alheias.

  • Menor flexibilidade social, pois é desafiador ajustar-se a contextos dinâmicos.

  • Isolamento ou retraimento, quando a comunicação se torna fonte de frustração.

Mas é importante lembrar: a ToM não é uma habilidade fixa. Ela pode ser estimulada e desenvolvida por meio de intervenções terapêuticas adequadas.


Caminhos para o desenvolvimento

Intervenções em duplas, trios ou grupos terapêuticos são fundamentais para o treino da Teoria da Mente. Através de atividades mediadas, jogos simbólicos, histórias sociais e dinâmicas de papéis, o terapeuta ajuda o indivíduo a:

  • Reconhecer emoções em expressões e gestos;

  • Inferir o que o outro pode estar pensando ou sentindo;

  • Refletir sobre o impacto de suas ações;

  • Exercitar a empatia cognitiva (entender o outro) e emocional (sentir com o outro).

Essas experiências concretas e repetidas permitem que a pessoa generalize o aprendizado e use essas habilidades fora do ambiente terapêutico, na escola, em casa, na vida.


A Teoria da Mente é uma das bases da convivência humana.

Quando há prejuízo nessa habilidade, o mundo social pode parecer confuso, imprevisível e até ameaçador. Nosso papel, enquanto terapeutas e educadores, é traduzir esse mundo, tornando-o mais compreensível e acessível. Porque compreender o outro é o primeiro passo para se conectar com o mundo — e consigo mesmo. (Continua após a publicidade).



Aprendizado que Transborda

O mais bonito no atendimento em grupo é ver o crescimento mútuo. Cada um aprende com o outro: os mais verbais ensinam a linguagem, os mais afetivos ensinam a emoção, e todos aprendem sobre respeito e convivência.


Esses espaços favorecem a generalização do aprendizado — aquilo que foi vivido ali é levado para casa, para a escola, para o cotidiano.


Mais do que uma técnica, trabalhar em grupo é um convite à humanização.

Porque quando o autismo encontra o outro, o que floresce é o mesmo que cura o mundo: a conexão genuína entre pessoas.


“A empatia nasce no encontro. E no encontro, todos aprendem.”

Mariana Ramos, Psicóloga & Neuropsicóloga

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