Autorregulação: o Caminho para Lidar com as Crises com Mais Compreensão e Calma
- Drª Mariana Ramos

- 21 de out. de 2025
- 3 min de leitura

As crises fazem parte da vida de muitas pessoas autistas — e, embora possam ser desafiadoras para toda a família, elas não são um sinal de desobediência ou “birra”, mas sim um pedido de ajuda do corpo e da mente diante de uma sobrecarga sensorial, emocional ou cognitiva.
Nessas horas, compreender o papel da autorregulação é fundamental. Ela não elimina as crises, mas ensina a reconhecer os sinais que antecedem e a criar estratégias para reduzir a intensidade e o sofrimento.(Continua após a publicidade).

Por que a autorregulação é tão importante durante a crise
A autorregulação é o processo interno que nos permite reconhecer o que estamos sentindo e buscar maneiras saudáveis de retomar o equilíbrio. Durante uma crise, o cérebro da pessoa com TEA pode entrar em um estado de alerta extremo, em que o raciocínio lógico se desconecta e o corpo reage apenas para se proteger — chorando, gritando, se isolando ou tendo movimentos repetitivos mais intensos.
Quando a pessoa aprende, ao longo do tempo, o que a ajuda a se acalmar, e quando a família reconhece e respeita esses recursos, a recuperação da crise se torna mais rápida, menos dolorosa e mais segura.
Antes, durante e depois da crise: o papel da autorregulação
1. Antes da crise:
A autorregulação ajuda a perceber os sinais de sobrecarga.
A pessoa (ou os cuidadores) aprende a identificar quando o corpo começa a mostrar que algo está demais: sons altos, rotina quebrada, fome, cansaço, toque excessivo ou confusão emocional.
Exemplo: perceber que o som da escola está incomodando e usar os fones abafadores antes de entrar na sala.
2. Durante a crise:
A autorregulação não significa “parar a crise”, mas criar condições seguras para atravessá-la.
Exemplo: permitir que a pessoa se balance, chore ou vá para um lugar mais tranquilo até que a intensidade diminua, sem repreensão. O foco é reduzir estímulos, garantir segurança física e emocional e acompanhar com calma e empatia.
3. Após a crise:
Quando o corpo volta ao equilíbrio, a autorregulação continua — agora com reflexão e aprendizado.
Exemplo: conversar sobre o que aconteceu (“O barulho estava muito alto?”, “Quer tentar um sinal para me avisar antes?”). Esses momentos ajudam a fortalecer o autoconhecimento e a preparar o caminho para lidar melhor em uma próxima vez. (Continua após a publicidade).

Como a família pode estimular a autorregulação em momentos de crise:
• Crie espaços seguros: um cantinho tranquilo, com poucos estímulos visuais e sonoros, pode ser um refúgio importante.
• Use objetos de conforto sensorial: brinquedos táteis, cobertores pesados, cheiros agradáveis ou músicas suaves podem ajudar o corpo a se reorganizar.
• Respeite o tempo da pessoa: o retorno ao equilíbrio é individual, evite pressionar para “voltar ao normal” rapidamente e utilizar a frase “Você já está calmo?”
• Evite punições e comparações: lembre-se de que a crise não é um ato voluntário, e sim uma resposta fisiológica à sobrecarga.
• Nomeie as emoções com cuidado: usar frases como “eu entendo que está difícil”, “você está seguro(a)”, ajuda a reconectar emoção e linguagem.
Cuidar da crise é cuidar do vínculo
Quando a família compreende que autorregulação e crise não são opostos, mas partes do mesmo processo de amadurecimento emocional, o olhar muda: a crise deixa de ser vista como fracasso e passa a ser um momento de acolhimento e aprendizado.
Cada episódio pode ensinar algo sobre os limites, os gatilhos e as necessidades sensoriais e afetivas da pessoa autista. E, com o tempo, esses aprendizados se transformam em autonomia e confiança, tanto para quem vive a crise quanto para quem acompanha.
Afinal, autorregular-se é aprender a reencontrar o próprio centro — e esse caminho se faz melhor quando é trilhado com amor, respeito e presença.




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