Setembro Amarelo termina, mas a saúde mental não pode esperar


O Setembro Amarelo chega aos seus últimos dias, mas a discussão que ele coloca em evidência não pode terminar junto com o calendário. No Brasil, falar de prevenção ao suicídio significa falar também de acesso à saúde mental, acolhimento, desigualdade social, violência, solidão, infância, adolescência e da capacidade do Estado de oferecer cuidado antes que o sofrimento se transforme em uma situação de emergência. O próprio Ministério da Saúde reconhece que o suicídio é um fenômeno complexo e de múltiplas determinações e ressalta que ele pode ser prevenido.
Nos últimos anos, o Brasil ampliou institucionalmente a estrutura pública destinada à saúde mental. O principal instrumento é a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), integrada ao SUS e formada por diferentes pontos de atenção, desde a Atenção Primária até serviços especializados e hospitalares. A lógica oficial é a do chamado “cuidado em liberdade”, priorizando serviços comunitários, autonomia, dignidade e direitos humanos. Na prática, isso significa reconhecer que saúde mental não deve ser tratada apenas quando uma pessoa chega a uma unidade de emergência, mas acompanhada ao longo do tempo.

Há também números que mostram uma retomada dos investimentos federais na área. Segundo o Relatório de Gestão Integrado de 2025 do Ministério da Saúde, foram habilitados 108 novos serviços de saúde mental naquele ano, levando a RAPS a 6.281 serviços financiados pelo governo federal. O documento aponta crescimento de 6% em relação aos 5.930 serviços habilitados em 2023 e relaciona esse movimento à recomposição do custeio de pontos importantes da rede.
A expansão dos Centros de Atenção Psicossocial, os CAPS, é outro indicador importante. No Novo PAC Saúde, foram previstas 204 novas unidades na primeira etapa, com investimento anunciado de R$ 449 milhões, enquanto a segunda etapa prevê mais 130 CAPS e R$ 324 milhões em investimentos. São estruturas fundamentais para pessoas que enfrentam sofrimento mental grave e persistente e também para situações relacionadas ao uso de álcool e outras drogas.

Mas quantidade de equipamentos não é sinônimo automático de acesso adequado. Saúde mental depende de profissionais, equipes completas, financiamento contínuo, distribuição territorial, articulação entre serviços e capacidade de acolher a população sem transformar cada pedido de ajuda em uma longa espera. O próprio Ministério da Saúde reconhece que fatores territoriais e estruturais condicionam a velocidade e a uniformidade da expansão da RAPS. É justamente nesse ponto que o debate do Setembro Amarelo precisa amadurecer: não basta falar sobre prevenção; é necessário garantir portas de entrada e continuidade do cuidado durante os 12 meses do ano.
Outro desafio está entre crianças, adolescentes e jovens. A escola é um espaço privilegiado para identificar sofrimento, violência, isolamento e outras situações que podem comprometer a saúde mental. O Programa Saúde na Escola inclui a saúde mental entre suas prioridades e articula as áreas de saúde e educação. Em 2026, o Ministério da Saúde também passou a disponibilizar o “Pode Falar”, plataforma gratuita de escuta para jovens de 13 a 24 anos, com possibilidade de atendimento anônimo e capacidade anunciada de até 11 mil atendimentos mensais.
A prevenção também depende de informação qualificada. O Ministério da Saúde mantém sistemas de vigilância sobre automutilação e suicídio justamente para identificar tendências, grupos vulneráveis e características dos casos, utilizando essas informações no planejamento das ações públicas. A Política Nacional de Prevenção da Automutilação e do Suicídio foi instituída pela Lei nº 13.819/2019 e possui uma estrutura de governança intersetorial. Isso é importante porque políticas públicas eficazes precisam partir de evidências e não apenas de campanhas sazonais.

O problema, portanto, não se resolve apenas com uma campanha de conscientização. O Setembro Amarelo tem importância por colocar o tema no espaço público e estimular conversas que muitas vezes ainda são cercadas pelo silêncio. Mas uma política permanente de prevenção exige investimento, capacitação profissional, fortalecimento da atenção básica, expansão dos CAPS, atendimento especializado para crianças e adolescentes, integração entre saúde e educação e acompanhamento das pessoas depois de uma crise. A campanha pode abrir a conversa; cabe ao poder público garantir que exista alguém — e algum serviço — preparado para continuar essa conversa.
Também é fundamental abandonar a ideia de que pedir ajuda representa fraqueza. O próprio Ministério da Saúde orienta que pessoas em sofrimento sejam ouvidas, respeitadas e encaminhadas para os serviços adequados. CAPS e Unidades Básicas de Saúde são portas de entrada para o cuidado, enquanto situações de emergência podem ser encaminhadas para UPA, SAMU 192, pronto-socorro ou hospitais. Em outras palavras, prevenção também significa criar uma cultura em que procurar ajuda seja compreendido como um ato de cuidado.
E, quando a dor parece grande demais para ser enfrentada em silêncio, existe também o Centro de Valorização da Vida (CVV). O serviço oferece apoio emocional gratuito, sigiloso e voluntário, 24 horas por dia, pelo telefone 188. Segundo o próprio CVV, foram realizados cerca de 2 milhões de atendimentos em 2025 por aproximadamente 3.200 voluntários. O número 188 funciona gratuitamente a partir de telefones fixos e celulares. Setembro pode estar acabando, mas o cuidado precisa continuar. Se você estiver sofrendo, converse com alguém. Procure ajuda. Ligue 188. Você não está sozinho.



Comentários