O Caminho Subjetivo da Autorregulação: Descobrindo Juntos o Que Traz Equilíbrio
- Drª Mariana Ramos

- 27 de out. de 2025
- 3 min de leitura

A autorregulação é um dos pilares mais importantes do desenvolvimento humano e, para pessoas no espectro autista, ela se torna ainda mais essencial para o bem-estar e para a convivência cotidiana. Quando falamos em autorregulação, estamos nos referindo à capacidade de reconhecer, compreender e ajustar as próprias emoções, pensamentos e comportamentos diante das situações da vida. (Continua após a publicidade).

Mas o ponto mais importante e, muitas vezes esquecido, é que a autorregulação é um caminho subjetivo, ou seja, único para cada pessoa. O que acalma um, pode gerar desconforto em outro. O que funciona em um dia, pode não funcionar no seguinte. E tudo bem. Esse processo não é linear: é um aprendizado construído em conjunto, com escuta, respeito e experimentação.
O que significa se autorregular?
Autorregular-se é encontrar formas de retornar ao equilíbrio interno quando algo nos tira do centro. Para uma criança autista, isso pode significar:
• balançar o corpo para se acalmar;
• buscar um brinquedo que traz conforto sensorial;
• cobrir os ouvidos diante de sons muito fortes;
• repetir palavras ou movimentos (ecolalia, movimentos repetitivos) para reduzir a tensão;
• pedir colo, silêncio ou espaço.
Essas são formas legítimas de autorregulação, que não devem ser vistas como “manias”, mas como estratégias adaptativas que ajudam a pessoa a lidar com estímulos e emoções intensas.
Cada pessoa tem seu próprio caminho
Não existe um modelo único de autorregulação. Alguns exemplos práticos de caminhos diferentes incluem:
• Autorregulação sensorial: usar fones abafadores, cobertores pesados, brinquedos sensoriais ou ambientes mais tranquilos.
• Autorregulação emocional: utilizar recursos como respiração profunda, técnicas de Mindfulness, pausas em momentos de sobrecarga ou pedir ajuda.
• Autorregulação social: aprender a reconhecer quando o corpo precisa de pausa de interações, comunicar desconforto e escolher o momento de retorno ao grupo.
• Autorregulação cognitiva: organizar o pensamento por meio de listas, rotina visual, ou instruções passo a passo que tragam previsibilidade.
Esses mecanismos se constroem com o tempo, e o apoio familiar é determinante para que a pessoa autista descubra quais estratégias realmente fazem sentido para ela.
O papel da família nesse processo
A família é a principal aliada na descoberta do caminho subjetivo da autorregulação.
Isso significa observar com empatia, sem pressa e sem julgamentos, os sinais que o corpo e o comportamento expressam.
Algumas atitudes que ajudam:
• Oferecer opções (“Você quer um tempo sozinho ou quer um abraço?”);
• Respeitar os limites sensoriais (como luz, som, textura e contato físico);
• Valorizar os momentos de calma sem forçar o retorno imediato à atividade;
• Criar rotinas previsíveis, com espaço para pausas;
• Buscar apoio profissional (fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, psicólogos) que possam orientar o desenvolvimento dessas estratégias.
Quando os pais compreendem que a autorregulação é uma construção conjunta, deixam de se sentir responsáveis por “controlar o comportamento” e passam a acompanhar o processo de aprendizado emocional do filho.
Descobrir juntos é o verdadeiro caminho
Autorregular-se é um aprendizado para a vida toda. E quando a família caminha junto, observando, acolhendo e celebrando pequenas conquistas, o processo se torna mais leve e significativo.

Cada pessoa autista tem um mundo interno repleto de nuances, e cada descoberta sobre o que ajuda ou desorganiza é um passo em direção à autonomia emocional.
Por isso, mais do que ensinar a se autorregular, precisamos descobrir juntos o caminho que leva à calma com respeito, amor e paciência.




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