O brincar como recurso terapêutico no desenvolvimento infantil: contribuições da Terapia Ocupacional


O brincar constitui uma ocupação central na infância e representa uma das principais formas pelas quais a criança explora o ambiente, experimenta possibilidades, interage socialmente e desenvolve diferentes competências. Na perspectiva da Terapia Ocupacional, o brincar não deve ser compreendido apenas como entretenimento, mas como uma ocupação significativa que pode favorecer participação, aprendizagem, autonomia e bem-estar. O Occupational Therapy Practice Framework – OTPF-4 reconhece o brincar como uma das áreas de ocupação relacionadas à participação humana e destaca a atuação do terapeuta ocupacional na promoção do engajamento da criança em atividades significativas. (Continua após a publicidade).

A utilização do brincar no contexto terapêutico baseia-se na ideia de que atividades espontâneas e motivadoras podem criar oportunidades para o treino de habilidades necessárias às ocupações cotidianas. A intervenção não consiste simplesmente em brincar com a criança, mas em selecionar ou adaptar atividades de acordo com objetivos funcionais, características individuais e demandas ambientais. Evidências reunidas em revisões sistemáticas indicam que intervenções baseadas em ocupações e atividades podem favorecer o desempenho e a participação infantil, especialmente quando associadas a orientação, planejamento, feedback e participação guiada.
Entre os recursos frequentemente utilizados está a massinha de modelar, que pode proporcionar oportunidades para movimentos de preensão, manipulação, resistência e coordenação das mãos. Atividades desse tipo podem ser incorporadas a objetivos relacionados às habilidades necessárias para tarefas como desenhar, recortar, manipular objetos escolares e realizar atividades de autocuidado. Entretanto, o benefício terapêutico não decorre automaticamente do material utilizado, mas da maneira como a atividade é planejada, graduada e relacionada às necessidades específicas de cada criança. (Continua após a publicidade).

Os pregadores de roupa também podem ser empregados em atividades que exigem movimentos de pinça e coordenação motora fina. A manipulação de pequenos objetos pode favorecer o controle dos dedos e a coordenação entre diferentes segmentos da mão, habilidades importantes para tarefas funcionais realizadas na escola e em casa. Nesse contexto, a Terapia Ocupacional procura transformar uma atividade lúdica em uma experiência funcional, ajustando sua complexidade de acordo com o nível de desempenho e os objetivos terapêuticos estabelecidos.
Os quebra-cabeças, por sua vez, oferecem desafios que envolvem percepção visual, análise das partes e do todo, resolução de problemas e planejamento da ação. O brincar orientado pode ainda favorecer processos relacionados à atenção e à flexibilidade cognitiva. Uma revisão sistemática e meta-análise sobre guided play identificou efeitos positivos em determinados resultados de aprendizagem, incluindo conhecimentos espaciais e capacidade de alternar entre tarefas, embora os resultados variem conforme o tipo de atividade e o desfecho avaliado. (Continua após a publicidade).

Atividades envolvendo circuitos de obstáculos podem acrescentar componentes de coordenação global, equilíbrio, orientação espacial e planejamento motor. Ao precisar caminhar, saltar, contornar objetos ou modificar sua estratégia diante de um obstáculo, a criança enfrenta demandas motoras e cognitivas simultaneamente. Na prática da Terapia Ocupacional, essas atividades podem ser graduadas para aumentar ou reduzir a complexidade e podem ser utilizadas para trabalhar objetivos específicos relacionados à participação infantil. Recursos baseados em movimento e brincadeiras também fazem parte de abordagens utilizadas para apoiar crianças com dificuldades motoras e sensoriais.

As brincadeiras com bolhas de sabão representam outro exemplo de atividade aparentemente simples que pode envolver diferentes competências. A criança pode precisar direcionar o olhar, acompanhar o movimento das bolhas, coordenar gestos, controlar a força empregada e sustentar a atenção para alcançar um determinado objetivo. Dependendo da proposta, a atividade também pode ser utilizada para estimular interação, turnos, comunicação e participação compartilhada. A literatura de Terapia Ocupacional reconhece o potencial do brincar para trabalhar componentes físicos, cognitivos, emocionais e sociais dentro de atividades significativas.

Um aspecto fundamental da intervenção baseada no brincar é a motivação da própria criança. Diferentemente de uma tarefa apresentada exclusivamente como exercício, uma atividade lúdica pode aumentar o envolvimento e criar oportunidades de aprendizagem contextualizada. Isso não significa que qualquer brincadeira seja automaticamente terapêutica, mas que o profissional pode utilizar os interesses da criança como ponto de partida para construir experiências direcionadas a objetivos funcionais, respeitando suas características, seu contexto e seu ritmo de desenvolvimento.
Nesse processo, a atuação do terapeuta ocupacional vai além da escolha dos brinquedos. O profissional analisa as demandas da atividade, as habilidades motoras, cognitivas, sensoriais e sociais envolvidas, além das características do ambiente e da rotina familiar. A partir dessa análise, pode adaptar materiais, modificar regras, graduar dificuldades e oferecer estratégias que favoreçam a participação. A própria definição contemporânea da Terapia Ocupacional contempla a avaliação de habilidades de desempenho, fatores pessoais e contexto, além do uso terapêutico de ocupações e atividades para melhorar desempenho e participação.
Portanto, compreender o brincar como recurso terapêutico significa reconhecer que desenvolvimento e participação acontecem também por meio das experiências que fazem sentido para a criança. Massinha, pregadores, quebra-cabeças, circuitos e bolhas de sabão podem ser utilizados como ferramentas dentro de um planejamento individualizado, mas seus efeitos dependem dos objetivos definidos e da forma como a intervenção é conduzida. A evidência disponível apoia o uso de intervenções ocupacionais e atividades significativas em pediatria, embora também destaque a necessidade de individualização e de interpretação cuidadosa dos resultados das pesquisas.
Em síntese, quando a Terapia Ocupacional utiliza o brincar de maneira planejada, a criança pode desenvolver habilidades enquanto participa de uma atividade que lhe é significativa e prazerosa. Essa integração entre ludicidade, funcionalidade e participação ajuda a explicar por que brincar pode ser, ao mesmo tempo, uma experiência própria da infância e uma poderosa ferramenta de intervenção. Mais do que fazer a criança “treinar” determinada habilidade, trata-se de criar condições para que ela explore, aprenda e conquiste progressivamente maior autonomia em suas ocupações cotidianas.
Referências selecionadas
American Occupational Therapy Association. Occupational Therapy Practice Framework: Domain and Process (OTPF-4). 4. ed. American Journal of Occupational Therapy, 2020.
Dean, E. E. et al. Occupation- and Activity-Based Interventions to Improve Performance of Activities of Daily Living, Play, and Leisure for Children and Youth Ages 5 to 21: A Systematic Review. American Journal of Occupational Therapy, 2021.
Skene, K. et al. Can guidance during play enhance children's learning and development in educational contexts? A systematic review and meta-analysis. Child Development, 2022.
O’Grady, M. G.; Dusing, S. C. Reliability and validity of play-based assessments of motor and cognitive skills for infants and young children: a systematic review. Physical Therapy, 2014.




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