Novembro Azul pela Psicanálise: o cuidado masculino e o enfrentamento do medo
- Tais Esposti Poly

- 18 de nov. de 2025
- 3 min de leitura

Com a chegada de novembro, inicia a campanha global de conscientização sobre a saúde do homem e prevenção do câncer de próstata, costuma enfatizar a importância dos exames periódicos e do diagnóstico precoce. Entretanto, quando observamos o fenômeno a partir da psicanálise, percebemos que a resistência masculina ao cuidado não é apenas falta de informação, mas envolve dimensões profundas do inconsciente, da cultura e da construção da masculinidade.
1. A masculinidade e o imperativo da invulnerabilidade
Desde os primórdios da nossa história, muitos homens são educados sob um discurso implícito: ser homem é ser forte, resistente, invulnerável. Essa construção simbólica, descrita por Freud e posteriormente ampliada por autores como Lacan, cria um ideal masculino que repele a fragilidade e qualquer gesto que possa remeter à dependência ou ao adoecimento.
Diante disso, o simples ato de procurar um médico, especialmente para um exame associado à sexualidade e ao corpo masculino, pode ser vivido como uma ameaça ao “eu ideal”, aquela imagem idealizada de força que o sujeito tenta sustentar.

2. O corpo masculino como território de tabu
Na psicanálise, o corpo é sempre simbólico: não é apenas biológico, mas carregado de significados. O exame de próstata, especificamente, toca em uma região cercada de tabus, medos e fantasias inconscientes, por várias vezes não elaboradas.
Para alguns homens, o toque retal pode despertar:
· medo de perda de controle;
· confusão com práticas sexuais que não se encaixam no ideal normativo;
· vergonha ligada à exposição do corpo;
· angústia frente à possibilidade de descobrir uma doença grave.
Essas fantasias, mesmo que não conscientes, influenciam o comportamento, produzindo evitação.
3. O medo da castração: quando o diagnóstico ameaça o sujeito
Na lógica freudiana, o medo da doença pode ser interpretado, simbolicamente, como medo da castração, ou seja, da perda de potência, vitalidade ou identidade. O diagnóstico de câncer pode representar, para muitos homens, uma ameaça ao que eles acreditam que os define.
Por isso, evitar o exame torna-se, inconscientemente, uma maneira de evitar esse encontro com a finitude.

4. A importância da escuta: quando o cuidado vira ato de subjetivação
A campanha Novembro Azul pode se beneficiar de um olhar psicanalítico ao pensar estratégias de aproximação que:
acolham o medo, em vez de tratá-lo como fraqueza;
valorizem a conversa e a escuta, reconhecendo que a resistência não é “teimosia”, mas defesa psíquica;
incentivem novos modos de viver a masculinidade, onde o cuidado seja sinal de liberdade e não de diminuição.
O trabalho não é apenas informar, é transformar símbolos, ampliar sentidos e permitir que o homem se autorize a cuidar de si.
5. O papel das relações e do vínculo
A psicanálise também destaca que a mudança raramente ocorre apenas pelo racional. O vínculo, com familiares, com profissionais de saúde ou com grupos de apoio é fundamental para que o paciente se sinta seguro o suficiente para enfrentar seus medos.
Conversas abertas sobre saúde masculina, quando livres de julgamento, podem quebrar o silêncio e o isolamento que reforçam a resistência.
O novembro Azul, visto pela psicanálise, é mais que uma campanha médica: é um convite à reinvenção da masculinidade. Um chamado para que os homens possam:
reconhecer sua vulnerabilidade;
enfrentar medos inconscientes;
transformar o cuidado em ato de responsabilidade e amor-próprio.
Quando o homem se permite ocupar o lugar de sujeito e não de símbolo rígido da força, o cuidado deixa de ser ameaça e passa a ser possibilidade de vida.




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