🧩 Dia Mundial da Conscientização do Autismo: Um Convite à Compreensão, ao Respeito e à Transformação
- Drª Mariana Ramos

- há 18 horas
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Como psicóloga e neuropsicóloga que atua diretamente com pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), escrevo neste dia com profunda alegria, uma alegria que nasce da prática, da ciência e, sobretudo, do contato humano.
Em 2026, vemos algo que há anos parecia distante: vemos pessoas com TEA trabalhando, ocupando espaços, subindo ao pódio, fazendo escolhas sobre seus tratamentos e, principalmente, se reconhecendo e se aceitando. Isso não é pouco. Isso é transformação social. Estamos falando de um público que muito tempo ficava dentro de casa ou em instituições e não tinham a oportunidade ao tratamento de qualidade, acesso a sociedade e eram tidos como “inacessíveis”.

Do invisível ao reconhecimento
Durante muito tempo, o autismo foi envolto em desinformação. Já foi chamado de “moda”, como se fosse uma invenção contemporânea. Mas essa narrativa ignora uma realidade dura: antes, muitas famílias escondiam seus filhos, não por escolha, mas por medo, vergonha e falta de acolhimento social. O julgamento social sustentava o calar e o não existir.
A história do autismo também foi marcada por mitos profundamente prejudiciais, como: a teoria das “mães geladeira” e a ideia de crianças “inalcançáveis” ou “sem afeto”, os chamados “Anjos de Barro”. Essas concepções não apenas estavam equivocadas, como dificultavam o avanço da compreensão científica e o acesso ao cuidado adequado. Hoje, felizmente, avançamos. O diagnóstico evoluiu, os critérios foram refinados e passamos a compreender o TEA como um Espectro, respeitando a diversidade de perfis e necessidades. Aqueles que dizem que o Autismo é moda, o fazem pois nunca estiveram ou conheceram instituições, para aqueles que vem delas o dia de hoje, em praça pública falar de TEA é uma conquista imensurável.

Cada pessoa é única: o princípio central do cuidado
Desde o início da minha formação em Psicologia (meu segundo período), aprendi algo que carrego como fundamento clínico: Cada pessoa com TEA é única. Isso significa que não existem fórmulas prontas. Existe escuta, investigação, individualização e, principalmente, respeito à singularidade e estudo, muito estudo dos terapeutas, e, sobretudo, existe o acreditar das famílias e da sociedade.
Nosso papel enquanto profissionais é: conhecer profundamente as abordagens terapêuticas, adaptar intervenções, potencializar habilidades e caminhar junto nas dificuldades, não somente entre as quatro paredes do consultório ou dos muros das instituições e sim, na vida, no ir e vir, no cenário da vida cotidiana. Sempre partindo de um ponto essencial: a pessoa antes do diagnóstico, mas, respeitar o direito das pessoas é também dizer o que elas tem, e apontar caminhos terapêuticos e acessos aos mesmos.

O avanço que nos emociona
Hoje, vemos o autismo ocupando espaços que antes eram negados: nas escolas, no mercado de trabalho, no esporte, na universidade, na vida social, nas igrejas, nos restaurantes, na vida... não mais nos porões.
E isso só é possível porque houve, e continua havendo, um movimento coletivo de conscientização. É emocionante ver: famílias mais fortalecidas, escolas mais preparadas e aceitando a eterna busca por qualificação, projetos sociais criando espaços reais de inclusão e tomando a diversidade como pontos de união, o esporte acolhendo de forma natural e nos ensinando a superar nossos limites a cada prática, serviços de saúde ampliando o cuidado enfrentando todos os desafios para se manter e manter a qualidade ao tratamento, o SUS promovendo acesso e ampliando a maneira de compreender o tratamento para pessoas com TEA, igrejas abrindo suas portas com acolhimento verdadeiro e não mais explicando o que tem causa multifatorial como algo espiritual. Saímos dos “porões invisíveis” para os espaços de convivência. E isso é conquista coletiva, de todos nós, envolvidos.

Gratidão a quem sustenta essa caminhada
Hoje, eu celebro:
As pessoas com TEA; por nos permitirem conhecer o mundo sob outras perspectivas
As famílias; pela resiliência diária e por substituírem às críticas pela fé.
Professores e mediadores; pelo compromisso com a inclusão e por desafiarem tudo que entendem de educação.
Equipes terapêuticas, pelo cuidado técnico e humano, dado como missão.
Projetos sociais, pela construção de pertencimento, do empoderamento e do direito a voz e a convivência.
O esporte; pela inclusão genuína e evolução do ser humano como agente de superação.
Espaços religiosos; pelo acolhimento espiritual e por nos ajudarem a trabalhar os estereótipos
E todos que se sensibilizam com a dor do outro. Porque é essa sensibilidade que transforma o mundo.
Um convite à reflexão
Conviver com pessoas autistas nos desafia. Nos tira do automático. Nos convida a rever certezas rígidas. Nos ensina que: nem tudo precisa ser como aprendemos, nem toda comunicação é verbal e nem toda lógica é socialmente padronizada e nem o sentido da vida. O autismo nos convida a: estudar, refletir, flexibilizar e humanizar, nos convida a aceitar que nunca vamos parar.
Conclusão:
Ainda temos muito a avançar. Mas também precisamos reconhecer o quanto já caminhamos. A conscientização do autismo não aconteceu por acaso, ela aconteceu porque pessoas decidiram olhar, estudar, acolher e lutar. E há algo que hoje podemos afirmar com segurança: Não voltaremos ao tempo do silêncio e da invisibilidade. Pois quando mudamos nossa forma de crer, mudamos nossas ações. Seguiremos avançando, juntos, baste olhar pro lado, e lá estará um de nós, ocupando seu próprio lugar, o lugar de serem pessoas na sociedade.




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