A Angústia Neurodivergente
- Drª Mariana Ramos

- 23 de jan.
- 7 min de leitura

Durante o período de férias, a rotina muda, o tempo em família aumenta e o convívio se torna mais intenso. Naturalmente, passamos a observar mais nossos filhos, a acompanhar cada comportamento, cada resposta e cada dificuldade de forma mais próxima. Esse contato ampliado, somado às conversas com outras famílias e às comparações que surgem nos encontros sociais, pode acabar despertando uma análise excessivamente crítica sobre o desenvolvimento dos nossos filhos.

Quando estamos mais próximos, também ficamos mais vulneráveis à Ansiedade. E a ansiedade, muitas vezes, caminha junto com a catastrofização: começamos a enxergar riscos onde há processo, atrasos onde há construção, limitações onde há esforço e avanço. Nesse movimento, corremos o risco de invalidar conquistas importantes, alcançadas com tanto trabalho, dedicação e persistência.
Cria-se, então, uma espécie de régua interna, uma métrica que é apenas nossa, construída a partir de expectativas, medos e comparações e passamos a medir nossos filhos por parâmetros que nem sempre são justos ou reais. O que antes era progresso passa a parecer insuficiente. O que era vitória passa a ser visto como pouco.

Essa mudança de olhar não diz respeito à falta de evolução da criança, mas ao excesso de cobrança que colocamos sobre o processo. Por isso, é fundamental pausar, revisar essa régua e lembrar que estar mais perto não deve significar exigir mais, e sim compreender melhor. O desenvolvimento continua acontecendo, mesmo quando a nossa ansiedade tenta nos convencer do contrário.
Ser neurodivergente ou ter um filho(a) neurodivergente não nos direciona a comparar aos típicos, e sim, relativizar compreendo que processos são processos e que, a caminhada é única, o que não podemos é deixar de estimular.
Cada criança é única dentro do Espectro: por que o progresso precisa ser visto com outros olhos
Quando falamos sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA), é comum ouvir frases como “meu filho também faz isso” ou “o filho de fulano já conseguiu tal coisa”. Embora algumas características do Espectro sejam semelhantes, é fundamental compreender um ponto central: nenhuma criança com TEA é igual à outra.
Cada sujeito possui um ritmo próprio de desenvolvimento, diferentes níveis de sensibilidade, habilidades, interesses e limites. Por isso, as intervenções não podem ser padronizadas. Elas precisam ser pensadas de forma individualizada e, sobretudo, gradual.
O desenvolvimento acontece aos poucos
Muitas habilidades que desejamos estimular como alimentação, comunicação, autonomia, socialização ou tolerância a estímulos não surgem de forma imediata. Elas são construídas passo a passo. Em crianças com TEA, isso se torna ainda mais importante por conta das alterações sensoriais, que fazem com que o mundo seja percebido de maneira mais intensa ou diferente.
É justamente nesse contexto que entra uma técnica muito utilizada na prática clínica: a dessensibilização sistemática.

Muitas vezes, ainda existe a ideia de que forçar é o caminho mais rápido para o aprendizado. Parte-se da crença de que, se a criança “se acostumar” ou “passar pelo desconforto de uma vez”, ela vai superar a dificuldade. No entanto, especialmente no contexto do Transtorno do Espectro Autista (TEA), essa lógica costuma produzir o efeito oposto.
Quando a criança é exposta de forma abrupta a algo que gera medo, incômodo ou sobrecarga sensorial, o cérebro registra aquela experiência como ameaçadora. Em vez de aprendizagem, ocorre aumento da ansiedade, intensificação da rejeição e, muitas vezes, surgimento de comportamentos de esquiva ou crise. Aquilo que poderia ser construído aos poucos passa a ser associado ao sofrimento.
Forçar não ensina o cérebro a se adaptar; ensina o cérebro a se defender. E, quando a defesa entra em ação, o desenvolvimento se bloqueia. É por isso que o caminho mais eficaz não é a imposição, mas a construção gradual, respeitosa e previsível. O avanço acontece quando a criança se sente segura, quando o estímulo é apresentado em pequenas doses e quando há tempo suficiente para que o sistema sensorial e emocional processe aquela experiência.
Aprender não é suportar. Aprender é integrar.
integração só acontece quando há respeito ao ritmo, às limitações e às possibilidades de cada sujeito. Forçar pode até gerar obediência momentânea, mas o verdadeiro desenvolvimento nasce do cuidado, da paciência e da compreensão de que cada passo tem seu tempo.
O que é a dessensibilização sistemática?
De forma simples, a dessensibilização sistemática é a exposição gradual e cuidadosa a estímulos que causam desconforto, respeitando o tempo de reação e repertório comportamental da criança. Não se trata de forçar, mas de apresentar aos poucos, com previsibilidade e segurança.
Por exemplo:
• Uma criança sensível a sons altos pode começar tolerando sons mais baixos, depois um pouco mais intensos, até conseguir lidar melhor com o ambiente.
• Uma criança que rejeita texturas pode primeiro olhar, depois tocar, cheirar e só então experimentar determinado material ou alimento.
Esse processo gradual é essencial porque o sistema sensorial precisa de tempo para se adaptar.
Alterações sensoriais: alguns exemplos comuns
Crianças com TEA podem apresentar:
• Sensibilidade aumentada a sons, luzes ou cheiros
• Incômodo com determinadas texturas de roupas ou superfícies
• Rejeição a alimentos por causa da cor, cheiro, textura ou temperatura
• Busca intensa por certos estímulos, como movimentos repetitivos ou pressão corporal
Essas respostas não são “birra” ou “teimosia”. Elas fazem parte da forma como o cérebro processa as informações sensoriais.
Alimentação: um exemplo prático
Na alimentação, isso fica muito evidente. Uma criança pode aceitar apenas alimentos:
• De uma única cor
• Com determinada textura (somente crocantes ou apenas pastosos)
• Preparados sempre da mesma forma
O avanço pode ser algo aparentemente pequeno, como:
• Aceitar que o alimento fique no prato
• Tocar com a ponta do dedo
• Levar até a boca e cuspir
• Dar uma pequena mordida
Cada um desses passos é uma conquista real e faz parte do processo. Não compare! O parâmetro é o próprio filho!!!
Um dos maiores desafios para os pais é lidar com a comparação. Quando olhamos para outras crianças, mesmo dentro do Espectro, podemos perder de vista algo muito importante:
O verdadeiro parâmetro de evolução é a criança comparada com ela mesma.
O que ela conseguia fazer há seis meses?
O que hoje já tolera melhor?
O que antes causava crise e agora causa apenas desconforto?
Muitas vezes, nossas expectativas acabam ofuscando os avanços reais. Quando esperamos grandes mudanças rápidas, corremos o risco de não enxergar as pequenas grandes evoluções que estão acontecendo diariamente. É preciso comemorar inclusive o fato de continuarmos caminhando, mesmo com todas estas dificuldades, é preciso valorizar o fato de estarmos juntos lutando dia a dia pelos nossos filhos e nossas famílias.
Ajustar o olhar é parte do cuidado. Tudo parte da percepção. Quando ajustamos nossa “régua crítica”, passamos a valorizar:
• O processo, e não apenas o resultado final
• O esforço da criança, mesmo quando o ganho parece pequeno
• O caminho que está sendo construído com constância e respeito
Estar atento às pequenas conquistas é uma forma de cuidado, de reconhecimento e de fortalecimento do vínculo. Cada passo conta. Cada tentativa importa. E cada evolução merece ser vista, celebrada e respeitada.
Porque, no desenvolvimento dos nossos filhos, crescer também é aprender a olhar com mais sensibilidade, paciência e confiança no processo.
Parábola: As Lentes Invisíveis: Como Nossos Pensamentos Moldam o Jeito de Enxergar a Vida
Havia uma pessoa que caminhava todos os dias pela mesma estrada. Era um caminho conhecido, com árvores, pedras, casas e pessoas que passavam por ali. Certo dia, alguém lhe entregou um par de lentes e disse: “Use estas lentes e observe o caminho”. Ao colocá-las, tudo pareceu diferente. As cores ficaram mais fortes, as sombras mais intensas e cada imperfeição do chão passou a chamar atenção. A pessoa seguiu andando, mas agora tropeçava mais, reclamava mais e sentia que o caminho havia piorado.
No dia seguinte, recebeu outro par de lentes. Ao usá-las, o mesmo caminho parecia mais suave. As pedras continuavam ali, mas eram vistas com menos rigidez; as árvores ofereciam sombra; as pessoas pareciam menos ameaçadoras. Nada havia mudado na estrada. O que mudou foi a forma de enxergar.
Com o tempo, essa pessoa percebeu algo importante: as lentes não alteravam a realidade, apenas filtravam o que os olhos captavam e o que a mente processava. Cada lente vinha acompanhada de pensamentos silenciosos alguns diziam “isso é perigoso”, outros sussurravam “isso faz parte do caminho”. E, a partir desses pensamentos, surgiam emoções, julgamentos e decisões.
Assim acontece conosco. Todos nós usamos lentes invisíveis, formadas pelas nossas experiências, medos, expectativas e crenças. São elas que influenciam a maneira como interpretamos o mundo, como nos vemos e como enxergamos o outro. Às vezes, usamos lentes da cobrança excessiva e vemos apenas falhas. Em outros momentos, usamos lentes da ansiedade e tudo parece urgente, insuficiente ou ameaçador. Há também lentes mais gentis, que nos permitem perceber esforços, processos e possibilidades.
Refletir sobre as lentes que estamos usando é um exercício de consciência. Quando ajustamos essas lentes, ampliamos nossa visão, tornamo-nos mais justos conosco e mais sensíveis ao outro. O mundo continua o mesmo, mas a forma como o interpretamos pode transformar completamente a nossa experiência de caminhar por ele.
Reconhecer que usamos lentes é um passo fundamental no processo de amadurecimento emocional. Essas lentes não estão apenas nos olhos; são lentes da alma, construídas pela mente a partir das nossas histórias, vivências, medos, expectativas e crenças. Elas determinam como interpretamos o que acontece ao nosso redor e, principalmente, como nos posicionamos diante do mundo, de nós mesmos e do outro.
Quando não temos consciência dessas lentes, tendemos a acreditar que nossa forma de ver a realidade é a própria realidade. Passamos a agir como se nossas interpretações fossem verdades absolutas, sem perceber que elas são atravessadas por emoções, experiências passadas e estados internos. Nesse ponto, a mente deixa de ser apenas um instrumento de compreensão e passa a ser um filtro rígido, que limita o olhar e empobrece as possibilidades de entendimento.
Saber que essas lentes existem nos devolve a responsabilidade pelo olhar. Permite questionar: de que lugar estou olhando? Que pensamentos estão guiando minha interpretação? Essa lente está ampliando ou restringindo minha capacidade de compreender? Ao fazer esse movimento, abrimos espaço para escolhas mais conscientes, respostas mais ajustadas e relações mais empáticas.
As lentes da alma podem endurecer o mundo ou torná-lo mais habitável. Podem nos aprisionar em expectativas irreais ou nos ajudar a enxergar processos, esforços e sentidos. Quando aprendemos a reconhecê-las, não eliminamos as dificuldades da vida, mas passamos a atravessá-las com mais clareza, menos julgamento e mais compaixão.
A forma como interpretamos a realidade molda a maneira como existimos nela. Cuidar das nossas lentes é, portanto, cuidar da forma como vivemos, nos relacionamos e damos significado às experiências. É um convite permanente à reflexão, à flexibilidade e à possibilidade de olhar e viver com mais consciência.




Comentários